UM DOS TRATAMENTOS PARA CALVÍCIE
Gostaria de compartilhar com vocês um pouco da vivência no consultório e de estudos sobre a calvície. A alopecia androgenética, conhecida popularmente como calvície, é uma das alopecias mais comuns. Todos os dias atendo pacientes com esse diagnóstico, e as dúvidas e comentários são comuns e se apresentam de uma forma muito semelhante quando o assunto é a finasterida:
“Dra., quais os efeitos colaterais da finasterida?”
“Dra., não quero tomar finasterida.”
“Dra., não me adaptei bem com a finasterida.”
“Dra., tomo finasterida há muito tempo, mas parou de funcionar.”
“Dra., tomo finasterida há muito tempo, mas fico preocupado, tenho medo.”
“Dra., o que pode acontecer quando se toma finasterida há muito tempo?”
São perguntas pertinentes e fico um tanto entusiasmada pelo fato dos pacientes prestarem mais atenção em seu corpo, sua saúde e se questionarem mais. Isso me agrada, pois nosso corpo tem uma linguagem que fala constantemente conosco, nos avisando quando algo não vai bem, mas na correria, fazemos questão de silenciar seus avisos que muitas vezes vêm de forma muito sutil. Ignoramos, afinal, temos muito “mais coisa para fazer”.
A finasterida pode ter alguns efeitos colaterais que não podem ser ignorados. Na bula, a taxa de efeitos colaterais relatada é muito baixa, em torno de 1,5%, sendo o mais comum diminuição de libido. Na prática clínica, percebo que a incidência é um pouco maior. Muitos se queixam dos efeitos colaterais com o uso da medicação, o que vai ao encontro com a revisão de literatura que fiz recentemente sobre o assunto em revistas e jornais científicos, demonstrando que realmente a incidência é maior do que a relatada na bula do medicamento. Não há um consenso, pois a incidência variou muito (1 a 30%) mesmo entre os estudos com alto nível de evidência científica. Algumas variáveis são dose utilizada, tempo de uso, queixa avaliada e a metodologia aplicada no estudo.
Alguns dos efeitos colaterais da finasterida na revisão de literatura realizada
- Diminuição de libido
- Dificuldade de ereção
- Diminuição da contagem de espermatozoides
- Ginecomastia
- Fadiga
- Ansiedade
- Depressão
Considerações importantes sobre o uso de finasterida
- Um ponto para ser ressaltado é sobre o medo que se instala na internet (sempre dá ibope), levando ao efeito nocebo (aparecimento de um efeito colateral estimulado pelas informações negativas sobre determinado medicamento ou procedimento). Isso é algo relativamente comum. A mente é capaz de curar ou adoecer o corpo. O corpo vai obedecer ao seu comando.
- Sobre os efeitos secundários permanentes e irreversíveis associados aos 5αRI, estudos mostram que os efeitos colaterais sexuais foram documentados apenas em estudos de baixa qualidade com forte viés. O único estudo de alta qualidade que documenta os efeitos colaterais sexuais persistentes mostrou que estes eram mais frequentes no placebo do que no grupo de tratamento, o que implica que os efeitos não estavam necessariamente relacionados ao tratamento.
- Entender o estilo de vida incluindo hábitos alimentares, sono, grau de estresse e a própria saúde mental e emocional do paciente é importante, já que muitas vezes a causa não está no medicamento em si. Em alguns casos, pode ser mera coincidência e o bom médico, juntamente com o paciente, saberá diferenciar uma situação da outra.
- Quando o assunto é efeitos colaterais da finasterida, cabe ao médico durante a consulta avaliar cada caso individualmente, levando em consideração a história do paciente, seu metabolismo, suscetibilidades e exames laboratoriais para decidir sobre seu uso, considerando também a opinião e queixas do paciente. Graças aos avanços da medicina e da tecnologia, temos outros recursos disponíveis para tratar os problemas capilares atualmente. Converse com seu tricologista.
Não façam automedicação. Algo muito comum, infelizmente. O corpo é o maior bem e negligenciar a saúde é algo perigoso. Sou muito criteriosa ao introduzir e propor um plano de tratamento para qualquer pessoa, e por isso aquele costume que muitos têm — “o que posso tomar para isso?”, “isso é bom?”, “posso tomar?” — é algo que incomoda. Nada substitui uma consulta e uma avaliação bem feita.
Referência bibliográfica principal
- FERTIG, R.; SHAPIRO, J.; BERGFELD, W.; TOSTI, A. Investigation of the Plausibility of 5-Alpha-Reductase Inhibitor Syndrome. Skin Appendage Disorders, v. 2, p. 120-129, 2016.